A HUMANIZAÇÃO DAS TECNOLOGIAS PELA ARTE
Diana Domingues

Que a arte nos revele aspectos humanos das tecnologias talvez seja uma estranha e idealista abordagem para alguns. Ou, para os apocalípticos, uma dado contestável em sua visão negativa das tecnologias para a humanidade. Há pessoas tão resistentes que não admitem nem mesmo um convívio necessário com as tecnologias usando terminais públicos ou quiosques de feiras. Tal resistência a interagir com as máquinas está trazendo limitações para tarefas cotidianas do homem neste final do século.

É preciso acreditar que o homem constrói seu presente e planeja um futuro cada vez melhor. Sem impedir o fluxo da história e dispender energia inútil, precisamos entender a presença das tecnologias e seus efeitos em uma vida cada vez mais mediada. Assim, longe de idealismos infundados, encontro uma série de conceitos em artistas e teóricos cujas reflexões dão conta da humanização das tecnologias.A história mostra que as civilizações nunca voltaram para trás, que as descobertas e inventos são acumulados e servem de background para outros inventos. Como diz Olivier Wendell Holmes, "a mente humana, uma vez que teve suas dimensões ampliadas para id´eias grandes, nunca mais retorna a seu tamanho original.

A Arte no Século XXI: A Humanização das Tecnologias coloca uma questão atual: a produção artística sintonizada com os avanços tecnológicos, revelando os aspectos humanos das tecnologias. As considerações têm a arte como ponto de convergência e são pensados os efeitos das tecnologias na vida contemporânea, determinando traços da cultura deste final de século.

O quase vazio editorial de publicações sobre cultura tecnológica no Brasil nos fez levantar nomes expressivos no cenário mundial e propor reflexões que estão reunidas em torno de algumas questões que podem dar conta do fenômeno cultural na era tecnológica. Os autores espalhados em torno de temas como: O Cenário Homem/Máquina, Revolução Numérica, Interatividade, Arte e Tecnologia: A História de Uma Ampla Transformação Cultural e Comunicação Planetária revelam um posicionamento crítico que afasta qualquer julgamento de mero idealismo. Penetram no âmago das ciências humanas como território convergente para se pensar descobertas científicas decorrentes das tecnologias integradas ao cotidiano. Há textos de extensões diversas, testemunhos de artistas, textos mais técnicos de matemáticos e engenheiros, textos poeticamente carregados, textos de alto coeficiente científico, conteúdos que demandam bagagem filosófica milenar, bem como textos de irônica leitura do cotidiano invadido pelas máquinas. Esta apresentação oferece um panorama com a intenção de lincar conceitualmente os vários textos.

Preferi um livro múltiplo, não linear, fragmentário, coerente com a cultura hibridizada pelas teorias científicas contemporâneas que revelam matrizes do pensamento do homem deste final de século. Não foram incluídas imagens como habitualmente nos livros de arte. Entre uma das razões está a própria natureza dos trabalhos comentados cujas características multimídia e interativa, na condição de eventos comunicacionais, não se presta a registros com imagens estáticas, as quais impossibilitam experienciar o processo que lhes é inerente. A imagem fotográfica congela e torna único aquilo que tem na sua origem a troca, o vir-a-ser. A fotografia, produto da era industrial, que captura um dado instante, imortalizando-o, não seria fiel ao processo, base primeira da arte interativa, que não privilegia mais a pura representação ou objetos únicos e acabados. É importante ressaltar que nas interações com as máquinas, mesmo na mera geração de imagens por computador, as formas estão em constante devir. As experiências interativas são resultantes de atos de um indivíduo a partir de determinados comportamentos. As manifestações artísticas com tecnologias são na sua maioria efêmeras, múltiplas, mutantes, um campo de possibilidades que se altera conforme as escolhas ou programas dos dispositivos e as variáveis dos sistemas.

A revolução digital, as tecnologias comunicacionais que entrelaçam o planeta, pela interatividade com ações em tempo real, a manipulação de informações em bancos de dados, as interfaces, a parceria com memórias eletrônicas são marcas que determinam esta publicação.

Arte e tecnologia: uma transformação cultural

Sabe-se que a revolução da eletrônica invade todos os campos da atividade humana. Os inventos da era industrial, como o cinema, o impresso, o rádio, mesmo tendo incidência sobre os processos internos de produção e pela aculturação de alguns setores dominantes, não eram responsáveis pelo impacto tão violento como a eletrônica vem assumindo na sociedade contemporânea. As informações através de imagens impressas e faladas circulavam em alguns segfmentos da sociedade, mas os setores produtivos podiam funcionar sem elas. Hoje, tudo passa pelas tecnologias: a religião, a indústria, a ciência, a educação entre outros campos da atividade humana estão utilizando intensamente as redes de comunicação, a informação computadorizada, e a humanidade está marcada pelos desafios políticos, econômicos e sociais decorrentes das tecnologias. A arte tecnológica também assume essa relação direta com a vida, gerando produções que levam o homem a repensar a sua própria condição humana.

Os artistas oferecem situações sensíveis com tecnologias, pois percebem que as relações do homem com o mundo não são mais as mesmas depois que as técnicas como o numérico, a inteligência artificial, a revolução da informática e das comunicações, a realidade virtual vêm irrompendo no cenário deste final de século. Computadores, softwares, câmeras, sensores, mixers, CD-ROMS, rede Internet, sintetizadores e outros inventos tecnológicos determinam o abandono de pincéis, tesouras, lápis, pastel, telas, filmes como instrumentos de criação. O afastamento do artista de técnicas como a pintura, o desenho, a escultura, da idéia de arte como mercadoria, a reavaliação dos conceitos artísticos fundados na representação de formas, no belo, na subjetividade, na individualidade e na artistificação dos meios são algumas das direções assumidas por estas novas formas de produção de arte. O conjunto de reflexões deixa evidente que a arte contemporânea há cerca de trinta anos abraçou uma série de práticas artísticas assentadas na revolução da eletrônica e nas tecnologias numéricas e que, nestes últimos anos do século, artistas espalhados pelo mundo adquirem uma consciência cada vez mais forte de seu papel como agentes de transformação na sociedade. Não interessa mais produzir voltados para um mercado oficial. Os artistas ligados a centros avançados de pesquisa ou isoladamente assumem a ruptura com a arte do passado num cenário dominado pela arte da participação, da interação, da comunicação planetária, colocando-se em novos circuitos não mais limitados à arte como objeto ou valor de culto, mas enfatizando, sobretudo, seu poder de comunicação. Fala-se no fim da arte da representação em favor de uma arte interativa que é basicamente comportamental e que não pode se encerrar em objetos acabados como uma escultura, pintura, fotografia ou outro suporte material, nem mesmo no cinema ou no vídeo em seus formatos habituais que impedem o diálogo transformador. Nas últimas décadas os artistas estão propondo que em arte a preocupação não é somente gerar imagens, contemplá-las passivamente, interpretá-las de maneira estéril, sem qualquer poder de modificá-las

Numa passagem da cultura material para a cultura imaterial, própria da arte tecnológica, os artistas substituem artefatos e ferramentas por dispositivos em múltiplas conexões de sistemas que envolvem modens, telefones, computadores, satélites, redes e outros inventos que auxiliam na produção e na comunicação. A circulação e recepção desta arte colocam mesmo em xeque figuras e estruturas de poder como o papel do artista e sua genialidade, a figura de curadores e marchands, o espaço sagrado de galerias e museus, a mídia como instância que homologa uma arte dita qualificada. Esta arte partilhada com as máquinas pode ser oferecida nas próprias casas, entrando por satélites, telefones e oferecendo-se para ser recebida, modificada e devolvida. Em CD-ROMS, websites, altamente distribuíveis, catálogos e revistas eletrônicos, trocas via rede, é o artista que assume a curadoria de seu próprio trabalho. Comunidades virtuais on line reúnem indivíduos por afinidade, onde a arte também afirma sua liberdade.

Que arte é esta da cibercultura? O ciberespaço e a arte interativa são invenções das tecnologias digitais do final do século XX. O papel, o fotograma sobre a celulóide, os muros da cidade deixam seu lugar para palhetas e menus eletrônicos, para a corrida dos pontos luminosos, para o pixel que não se fixa na tela, para o som, para o fluxo de ondas. O espaço é mais do que o bidimensional, o tridimensional, o arquitetônico, o das cenas naturais. É o espaço dos computadores, o ciberespaço, o espaço de ambientes digitais da realidade virtual. A arte circula em satélites que conversam no céu, em modens que traduzem sinais sonoros em gráficos, instala-se em próteses eletrônicas para o corpo, em transdutores e sensores, em robots que nos substituem, em sofisticados circuitos e sistemas computadorizados e das telecomunicações.

Arte e Vida: Pioneiros

"A arte nunca esteve tão próxima da vida", poderia dizer Marcel Duchamp, jogando tranqüilamente seu xadrês via Internet num chat com seu colecionador Arensberg. Leonardo e Turner veriam as forças invisíveis serem captadas e transformadas por circuitos lógicos digitais. Seurat ficaria recriando formas com suas unidades matemáticas em milhares infinitas de variáveis. Mondrian percorreria ambientes com tramas ortogonais de microestruturas binárias. Klein derramaria seu azul luminoso sobre o planeta. Dali nos convidaria a entortar seus relógios em efeitos morphi. Bosch enlouqueceria projetando mundos avessos de colagens eletrônicas. Escher oferecendo interações em seus espaços ambíguos por variáveis computacionais. Bacon entraria nas mais recônditas vísceras. Cezanne construiria espaços mutantes e nos imergiria em suas paisagens RV. Picasso e Braque imaginariam a simultaneidade dos múltiplos pontos de vista em processos de animação, a velocidade futurista se fragmentaria no ciberespaço. As escritas inconscientes de Tobey permutariam no inconsciente imaginário da máquina. A energia do corpo de Pollock estaria conectada por interfaces oferecendo-se para trocas com o corpo do outro.

Happenings e performances na arte de agora estão sendo vividos por corpos tecnologizados, amplificados na sua totalidade física e psicológica, comandam e/ou são comandados por dispositivos de interação. O que cada vez menos está sendo discutido é a matéria, as formas em estados permanentes, o lugar como um espaço imutável. Geografias se fundem e são transplantadas, corpos se tocam no planeta, o mundo é um grande organismo vivo que circula nos vasos comunicantes da redes.

Parece-nos bastante evidente que nestes últimos vinte anos houve mais descobertas do que em toda a história da humanidade. Os artistas estão se dando conta de uma outra cosmovisão que converge com as teorias científicas contemporâneas, que pensam o mundo em sua complexidade, não linearidade, em relações caóticas de nascimento de novas ordens pelos fenômenos que interagem no universo. Como registrar um dado pensamento do mundo de forma fixa e imutável sobre um dado material e encerrá-lo sem a posssibilidade de adquirir outros estados? Ignorando as modificações impostas pela revolução eletrônica e das telecomunicações, a maior parte da arte que vem se fazendo hoje e que circula como arte estabelecida ainda compactua com a era pré-industrial por uma arte à base da manualidade ou apenas incorporando os inventos da revolução industrial, em descobertas da física e da mecânica, da matemática ou da química, pela discussão de problemas de resistência, fragilidade, escala, reações, qualidades de formas, mas sempre uma arte que se faz com materiais, ainda distante das tecnologias eletrônicas. Palavras como imaterialidade, interatividade, conectividade, imersão, interface, telemática são obrigatórias neste universo da arte tecnológica. A arte tecnológica interativa pressupõe a colaboração, a parceria, o fim das verdades acabadas, do imutável, do linear.

A técnica hoje é ampliada pelas relações techné-logos. Hardwares e softwares, resultantes das conquistas da eletrônica e da informática, enriquecem os inventos da era industrial, disponibilizando tecnologias de alta sofisticação. O surgimento de sistemas que concentram informações disponíveis em memórias está convidando muitos artistas a trabalharem impregnados de uma outra cosmovisão. Neste livro, a arte trama uma floresta densa de relações entre as ciências humanas, as ciências exatas e as ciências da vida, tratando a arte em sua convergência e complexidade, pela interpenetração de problemas da matemática, informática, robótica, comunicação, filosofia, estética, ética, semiótica, física, biologia, antropologia, cibernética, astronomia e outros campos do saber humano. Automacão industrial, robótica, vida artificial, genética, engenharia biológica entre outras áreas de produção usam informações de bancos de dados eletrônicos e ampliam as relações do homem com as máquinas.

Com a arte computadorizada, surge a síntese numérica, onde as imagens não são mais resultantes do olhar, ou geradas por um olho mecânico de câmeras que o prolonga, mas imagens que se escrevem através de cálculos matemáticos e dialogam com o cérebro eletrônico dos computadores. Na numerização das imagens, tecnologias digitais compatibilizam imagens analógicas, transformando-as em um tecido de pontos organizados, para que os artistas possam manipulá-las infinitamente. Imagens analógicas são processadas por variados recursos oferecidos pelos menus dos softwares. O gesto próprio e pessoal do artista é substituído por escolhas num diálogo interativo entre seu pensamento com a máquina. No caso das imagens sintéticas, geradas por pura linguagem e cálculo, como produtos de linguagem matemática, figuras nascem no interior dos circuitos sem qualquer influência da luz como grafia luminosa sobre suportes sensíveis. Couchot nos fala fala de imagens utópicas e ucrônicas, sem lugar e sem tempo, porque estas imagens não estão fixas em nenhum lugar, mas num estado de permanente existir ("Médias et immédias". In Allezaud, Robert (org.) Oziris, Paris, 1986). Podemos agir sobre elas com mouses, teclados ou outro dispositivo. Imagens, sons, textos entram para os espaços dos bancos de dados e são estruturas permutáveis em permanente contaminação. A autoria destas imagens e circuitos de interação não é unicamente a do artista, mas a de informáticos, engenheiros, matemáticos, técnicos, e também a das máquinas.

No processo de produção da arte tecnológica, os artistas estreitam seus laços com cientistas e técnicos trabalhando numa fértil colaboração. O artista não é mais o autor solitário de suas peças, produzindo artefatos com ferramentas ou máquinas, mas utiliza circuitos eletrônicos, dialoga com memórias e programas dos sistemas, se conecta por interfaces. Esta situação reafirma que a história da arte é substancialmente uma história de meios e linguagens, e que as tecnologias eletrônicas, próprias deste final de século XX, colocam-se como outros meios de produção para os artistas. Novas espécies de imagens, de sons, de formas geradas por tecnologias eletrônicas e pelos dispositivos tecnológicos de acesso permitem um contato direto com a obra, modificando as maneiras de fruir imagens e sons. As interfaces possibilitam manipular informações que podem ser trocadas, negociadas, fazendo com que a arte deixe de ser um produto da mera expressão do artista. Os artistas utilizam tecnologias avançadas e geram eventos que possibilitam um diálogo multidimensional através de redes, oferecendo ao homem a oportunidade de se conectar, agir e nas redes, modificar a idéia proposta pelo artista Num sentido social, a posição que a arte interativa deste espectador-participante assume no contexto cultural é de natureza política. A arte, sobretudo a arte das redes, não está mais a serviço de camadas dominantes nem fica legitimada somente por uma elite social ou econômica, não está limitada a hierarquias, pois a informação chega a quem quer que seja no planeta. Da mesma forma que nas sociedades primitivas, a arte se reconcilia com a sociedade numa relação direta arte/vida.

O Espetáculo Terminou

Como pensar hoje espaços proibidos, limitados, onde os avisos de não tocar, fazer silêncio, não mexer, colocam a impossibilidade de partilhar fisicamente a obra do artista? A palavra-chave para o próximo milênio é interatividade.

A revolução numérica introduz a interatividade e põe fim à noção de espetáculo onde a arte é assistida e interpretada como um ato puramente mental. Nas últimas décadas, está sendo proposto que em arte a preocupação não é somente gerar imagens, contemplá-las passivamente, construir o sentido por interpretações estéreis, isto é, sem qualquer poder de modificá-las . A arte interativa é totalmente avessa ao princípio de inércia. Surge um novo espectador mais participativo que através de interfaces tem acesso à obra proposta. modificando-a. São as interfaces amigáveis. que permitem as trocas do espectador com as fontes de informação. A contemplação é substituída pela relação. A base desta participação na história das artes é a passagem das tecnologias analógicas, como a fotografia, o cinema e o vídeo, para os processos numéricos de geração de imagens e sons. A imagem calculada por pontos é uma imagem quantificada e por sua natureza de matriz numérica permite o acesso ao seu tecido em pequenas microunidades que aceitam modificações. assim, O contemplador de um quadro, diante dos limites da moldura, o espectador de cinema, que como numa caverna povoada de sombras assiste a histórias, o zapper que pode saltar por entre vários canais, todos podem agora experimentar sensações provocadas através de dispositivos ao navegar em sistemas não lineares de menus de computador e de textos hipermídia. Em outras situação, podem comandar robôs, entrar em mundos virtuais, websites, ou andar em instalações interativas que mesclam o real e o virtual. A obra interativa pede a participação a colaboração e só tem existência quando é ativada e modificada em tempo real, dando respostas instantâneas para quem as experimenta.

Na interatividade, a base da criação artística é a metamorfose. As tecnologias eletrônicas colocam em cena a possibilidade de tudo se transformar. As trocas de sentido, entretanto, não se dão somente como atos de interpretação, tal como se verifica nas artes tradicionais. A arte interativa permite uma troca física através das interfaces que dão acesso ao tecido que constitui a obra. A interatividade produz modificações físicas perceptíveis, é metamórfica por princípio, propõe a permutabilidade, a mutação dinâmica, numa influência recíproca que dissolve o conceito de autor pela ação constante de quem altera a situação proposta pelo artista. Ao ser facultada a gestão dos conhecimentos simulados nos bancos de dados, ocorre, portanto, outra ação comunicativa num jogo entre os componentes simbólicos propostos pelo pensamento do criador, que a partir de ferramentas amigáveis desencadeia processos de diálogo com o pensamento do outro.

A situação de troca com o objeto artístico possibilitada ao público se insere remotamente no princípio de incrustação ou inclusão, próprio das poéticas participacionistas dos anos 60, cuja fonte principal são as teorias de origem duchampiana, retomadas intensamente por John Cage, pelo grupo Fluxus, pelos happenings e outras manifestações da época. Esta arte da participação foi anunciada fortemente no Brasil nas figuras exponenciais de Lygia Clark e Helio Oiticica que introduzem a ação do espectador participante em tempo real, sintonizados com a idéia de superação da idéia de arte como objeto e indo em direção a de processo a ser vivido. Eles já nos convidavam a vestir roupas, tocar em objetos, respirar, entre ouras participações. Propunham a recepção como processos participativos por ações neuromusculares que envolvem o corpo, não se resumindo à natureza intersubjetiva de atos puramente interpretativos que se dão na mente. Da mesma forma, para o artista tecnológico, interessa uma ação com respostas obtidas através de máquinas. Logo, o universo participativo de Hélio Oiticica e Lygia Clark se enriquece a partir das tecnologias eletrônicas e principalmente pelo digital que oferece a interatividade num sentido stricto em que podemos penetrar nas informações dos sistemas. As máquinas recebem nossas informações, traduzem nossos comportamentos e nos devolvem numa real interatividade.

Na AI , Arte Interativa, o participante da experiência é captado por sensores, comanda robots, veste macacões e capacetes, usa óculos especiais, manipula mouses, aciona teclados. Circulando num CD-ROM, manipulando hipertextos, penetrando em ambientes digitais de instalações ou imergindo em realidade virtual, conectados em websites, jogando em computadores, gerando formas de vida artificial, sempre estamos interaindo por resultado de inputs e outputs, ou em entradas e saídas, com respostas devolvidas a partir de máquinas. é substituída pelo conceito de relação. Esculturas, objetos e instalações não somente exploram o espaço real mas transformam-se, estão em constante mutação. Tocando, assoprando, pedalando, dançando, caminhando, respirando, vivemos em mundos antes não experimentados e inacessíveis. O que significa que os artistas vão explorar o poder dialógico das máquinas, a sua capacidade de entender e traduzir sinais emitidos num processo de aquisição e comunicação de dados que gera trabalhos "vivos". São öbjetos vivos".

Conforme Stephen Bell, ( LEA, vol. 2, n. 7 , julho 1994) http: mitpress.mit.edu/LEA/articles.txt) devemos considerar os graus e a maneira de participar. Entretanto, não importa em qual intimidade com o tecido digital, a interatividade gera sempre uma informação resultante de uma colaboração mútua do homem com as máquinas. Dependendo da tecnologia existe um tipo de colaboração e o grau e a maneira de controlar a participação do participantes. Existe também um grau de reconhecimento das intenções que às vezes se dá em sistemas preparados para entrar em processos randômicos, nos quais as respostas não podem mais ser controladas pelo homem. As seqüências de ações são decididas pelo computadaor e não mais pelo interagente, pois a máquina desenvolve uma série de operações imprevisíveis para o participante da experiência. O que se mantém, entretanto, como característica de todas as tecnologias interativas é o tempo real. Ou seja, as transformações que se dão no momento mesmo em que o participante determina uma ordem para o sistema que a entende e a devolve transformada. Para estabelecer esta troca conjunta, existem sempre os dispositivos de acesso ou interfaces. Estes dispositivos são responsáveis por registrar, traduzir o comportamento do homem com a máquina e da máquina para o homem. E nestas relações , o temos feedbacks que não seriam possíveis sem as máquinas.O conceito de inter-face é diverso do sur-face( francês e inglês = surface ou superfície) ou sobre a face. São inter-relações ou interdecisões tomadas por corpos diferentes. No caso, estão conectados o corpo biológico e o corpo sintético das máq\uinas. A mente do homem e a mente de silicom do computador. O sistema nervoso biológico e as redes nervosas da máquina.

As interfaces, a robótica e o pós-humano

Para se pensar as relações homem-máquina, temos que entender que as máquinas são programadas para assumirem determinadas funções interativas. São construídas interfaces ou dispositivos de acesso e os artistas, cientistas e técnicos determinam o comportamento dos sistemas em variáveis que são vividas pelo homem em diálogo com as possibilidades do circuito. As máquinas assumem, portanto, uma forte dimensão comportamental que está que está além do costumeiro uso que se faz dos computadores nas criações gráficas, vistas em displays luminosos em softcopies ou retornando ao suporte em hardcopies .

A dimensão comportamental das tecnologias interativas nos coloca diante do pós-biológico, da cultura da bioeletrônica. O participante da experiência está diretamente confrontado com dispositivos virtuais que, como corpos sintéticos, aceitam e transformam ações do corpo biológico. Estas interfaces movimentam estruturas cerebrais e manipulam dados biológicos. O corpo como aparato biológico entra num curto-circuito plurissensorial onde sua modalidade analógica se funde a modalidades digitais. Os sentidos capturados por dispositivos de acesso são digitalizados pela numerização, e a percepção e compreensão funcionam de forma integrada numa mescla da vida orgânica e inorgânica. Experimentamos navegações, conversações, imersões, conexões nas trocas com sistemas. Na arte interativa, na robótica, na realidade virtual, o "trompe l’oeil", em suas operações visuais e retinianas, é ampliado pelo "trompe les sens", por apelos sinestésicos do corpo que se refaz em múltiplas conexões dos sentidos com as possibilidades dos sistemas.

Vivemos uma outra natureza onde o corpo humano e os sistemas artificiais estão numa estreita simbiose do tecnológico/artificial/natural interfaceado ao físico/real e virtual/digital ( Domingues, Diana FleshFactor). A eletrônica está ampliando a inteligência e a percepção traduzidas em paradigmas computacionais e a comunicação com as máquinas está determinando a fusão de sistemas naturais inteligentes com sistemas articiais inteligentes.

A Arte Interativa reorganiza camadas de sensibilidade, ampliando o campo de percepção em trocas e modos de circulação através de redes e circuitos de informação e se coloca de forma diversa da arte dos suportes matéricos. Com isto, está se gerando uma mentalidade própria da era digital em que a utilização de dispositivos tecnológicos é mais do que prolongamentos sensoriais de natureza mcluhiana, como, por exemplo, o binóculo, as câmeras e outras máquinas de olhar. O corpo humano pelo diálogo com softwares se conecta com cérebros eletrônicos que nos levam a processos cognitivos e mentais de uma outra natureza.

A simbiose do homem com a máquina é um foco de estudos da robótica que coloca em questão as relações corpo/máquina. A máquina, criação humana, está dando ao homem poderes ultra humanos (Teillard de Chardin) A arte feita com máquinas sempre conta com o humano. Atrás de mouses, teclados, luvas, na ponta de fios, cabos, há um homem com a sua energia natural que se funde à energia das máquinas. O sangue tem o mesmo valor que a corrente elétrica. As ações de um corpo tecnologizado determinam mudanças nas formas de sentir, numa relação de vida na qual os dispositivos sentem e devolvem a energia do corpo. Os dispositivos sentem em nosso lugar e nós sentimos diversamente com eles. As tecnologias ampliaram o campo de percepção por novas formas de existir antes não permitidas por um corpo somente biológico.Os sistemas transformam as ordens que lhes são dadas com uma lógica própria. Logo, funcionam fora de nosso corpo. A ordem é dada à máquina que a identifica e a executa separadamente do corpo. Com as tecnologias computadorizadas, o homem está se entregando cada vez mais à capacidade das máquinas de modificar seu pensamento. No caso de aplicações de redes neurais, estamos diante de redes nervosas que ainda bastante simplificadas , procuram simular o funcionamento do sistema nervoso central, podendo tratar problemas não-lineares, através de algoritmos. Os sistemas de reconhecimento de voz, as redes neurais e outras pesquisas avançadas integram a arte à informática e automação industrial. No caso da robótica, as máquinas agem com capacidades similares ao do homem. Os telerrobôs, agem em espaços remotos, vasculhando a superfície lunar, plantando ou colhendo materiais, ampliando nossos braços, pernas, olhar. A partir da cibernética, as máquinas governadas pelos homens utilizam circuitos nervosos que procuram simular o funcionamento de nosso cérebro. Programas que fazem operações próprias de nossso cérebro como por exemplo cálculos, processamento de linguagem matemática, manipulam linguagens simbólicas, em resultados até mesmo impossíveis de serem pensados pelo homem, como é o caso da geometria fractal. Satélites vêem a Terra do lado de fora e processam informações codificadas em sinais que emitem visões do cosmos. Computadores jogam xadrês, comandam o funcionamento de portas, de vôos aéreos, de circuitos de empresas. E o que pensar das leituras de um corpo em finas fatias, obtidas por uma tomografia computadorizada, de uma ecografia que interpreta e faz imagens de sons do corpo, ou de videolaparoscopia, que com uma microcâmera penetra nas vísceras de um corpo em pleno funcionamento? Cada vez mais as máquinas estão tendo capacidades além do humano. Mas sabemos que ainda estas máquinas mão conseguem tomar decisões como trocar um antibiótico por outro.( Moravec, Hans. Il Robot universale. In Il Corpo Tecnologico. Capucci, Pier Luigi, (Org.).

As redes de comunicação

Nas dimensões de um corpo planetário, se colocam os eventos das redes com encontros e interações à distância, determinando o surgimento de comunidades virtuais, formadas por afinidades. Na cultura das redes, ganha especial evidência o fato de que as tecnologias a serviço da arte, entre outras alterações no circuito artístico-cultural, desencadeiam processos de diálogo pelos dispositivos de comunicação que permitem a interação dinâmica da experiência artística, propondo a participação, o diálogo, a colaboração entre parceiros. Os artistas utilizam a rede para transmissões onde pensamentos, conceitos vão sendo acumulados e trocados por outros conceitos em tempo real, não interessando, mais a noção de objeto ou de representação, mas a idéia de fluxo, evento. Pelas redes, numa trama, se verificam trocas imediatas no ciberespaço. A arte circula no planeta e os computadores e as telecomunicações ganham dimensões artísticas. O artista se dispersa em redes e terminais, em favor de uma criação distribuída. Modifica-se o conceito de artista como autor único, e a "obra" assume intensamente sua função comunicacional. É socializada em fronteiras compartilhadas pelo autor e pelo público.

A presença da rede Internet nos últimos anos faz proliferar os websites artísticos, muitos deles permitindo uma real presença dos interagentes. Nessa outra perspectiva se colocam também os netmuseus, as netgalerias, os netmagazines que disseminam informações sobre arte no espaço planetário. Além dos aspectos comunicacionais das obras artísticas propostas em rede, o espaço da Internet se coloca, portanto, como um lugar onde obras de arte, acervos podem ser consultados, configurando um espaço sociocultural aberto, sem vínculo com as estruturas institucionais ou particulares e abolindo o caráter hierárquico que lhes é próprio. Catálogos eletrônicos que utilizam os suportes multimídia interativos são veiculados, assim como disquetes substituem catálogos impressos da gráfica eletrônica. As conexões que se fazem na rede demandam um pensamento associativo, não-linear, que explora estruturas manipuláveis, através de links, que permitem abrir e fechar janelas no espaço da rede.

Surge uma cibersociedade com uma ciberpercepção, e uma "consciência global" de mentes conectadas. O corpo assume a capacidade de circular no planeta, transpondo geografias, entrando em zonas privadas de intimidade de casas, se conecta numa rede mundial que elimima quelquer diferença sociais étnicas ou políticas numa mente global. ou num hipercórtex, como diz Roy Ascott.

Entretanto, teorias apocalípticas vêm um grande perigo no homem ramificado em máquinas sedutoras e atribuem às tecnologias um caráter alucinatório e alucinógeno, como drogas que estão aprisionando o homem em existências virtiuias de alta sofisticação das programações computadorizadas que acabará por escapar ao controle humano. Deve-se, por uma exigência desta era digital, tentar entender os limites do biológico ampliado. Em uma situação extrema, estamos mesmo num estágio avançado de manipulação de informações que não são mais feitas por energia ou massa, mas por rematerializações de informações, ou seja, dados informacionais que geram vidas como a de Doly.

Parece-nos que longe de negações ou temores, há que se pensar em novas formas de vida que reconfiguram e redefinem o que significa ser humano. Neste panorama do homem sempre assistido por um computador, ocorre uma comunicação integral e integrada com sistemas informatizados, numa espécie de desmaterialização do corpo onde os órgãos humanos são conectados a máquinas. Neste final de século, está se delineando uma simbiose homem-máquina e anunciando, para o próximo milênio, uma situação onde será cada vez mais difícil distinguir "a prótese no humano e a parte de carne na máquina", diz Bernard Lévy. O radicalismo do artista australiano Stelarc postula que o homem poderá até mesmo "determinar o destino de seu DNA. Como diferenciar o que é humano neste enorme fading do orgânico e do inorgânico? Que subjetividade é esta que se transmite através de circuitos, na intimidade digital do cibespaço com suas cálculos ou unidade mínimas que como pedrinhas podem ser tocadas em sua microestrutura?

No campo da arte, passamos do espaço das cavernas, às videoconferências, à telepresença, numa soma da robótica com as telecomunicações, à Realidade Virtual, com suas visões estereoscópicas que eliminam o quadrado da tela e abrem o espaço de ambientes digitais. Chega-se à arquitetura do ciberespaço, os menus eletrônicos, aos CD-ROMS, aos websites. Não importa em qual situação, a sensiblidade humana deste final de século está se fazendo em ambientes tecnologizados. O que está interessando aos artistas são estas contaminações do humano com o silício, os neurônios em simbiose com as sinopses nervosas dos circuitos lógico-programáveis em associações que amplificam o humano. Os artistas estão checando o poder das máquinas em ampliar sua existência.

Cabe aos artistas verificar o potencial sensível das tecnologias. Diz McLuhan: "Não é no nível das idéias e dos conceitos que a tecnologia tem seus efeitos: são as relações dos sentidos e dos modelos de percepção que ela muda pouco a pouco e sem encontrar a mínima resistência. Só o artista pode enfrentar impunemente a tecnologia porque ele é um especialista em notar as trocas de percepção sensorial".

Parece-nos que é importante arriscar em visões de que no século XXI, imersos numa realidade mediada, intensamente conectada às máquinas, os homens estarão usando mais e mais interfaces, interagindo em muitos momentos de sua vida. Da mesma forma que aTV, para se fazer uma analogia com o momento contemporâneo, as tecnologias interativas serão extremamente facilitadas ao homem que estará reinventando sua vida e determinando uma outra natureza da espécie. (Domingues Diana, In: Mechanistic Baggage. Sherman, Tom, Moderator. Netsymposium FleshFactor, Ars Electronica Festival, 1997). No contexto das interações digitais, cada homem poderá dizer a si próprio: "eu sou na medida de minhas conexões".