REDE XAMÂNICA: INTERSECÇÕES ENTRE AS CULTURAS INDÍGENA E TELEMÁTICA
Maio de 1997
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Profissionais e Instituições envolvidas:
- Prof. Dr.Roy Ascott, diretor do CAiiA, Centre for the Advanced Inquiry in the Interactive Arts, UNIVERSITY OF WALES COLLEGE, Newport, Wales, Reino Unido.
- Profa. Dra. Diana Domingues, Coordenadora do Mestrado Interinstitucional em Comunicação e Semiótica, UCS/ PUCSP e coordenadora do Projeto Integrado de Pesquisa, ARTE,TECNOLOGIA E COMUNICAÇÃO: Poéticas, Nós e Interações, da UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL
- Prof. Dr. Gilbertto Prado, do Mestrado em Multimeios da UNICAMP.
- Prof. Dra. Tania Fraga, Coordenadora do Mestrado em Arte e Tecnologia da Universidade de Brasilia, UnB.
- Profa. Me. Maria Luiza Taunay, Mestrado em Arte e Tecnologia da Universidade de Brasilia, UnB.
- Profa. Me Virgínia Haeser, FUNAI.
Cinco Instituições envolvidas numa ação internacional que interrelaciona a Cultura Indígena e a Cultura Telemática .Todas as Instituições têm cursos de Pós-Graduação e pesquisas em arte e tecnologia. As Universidades brasileiras estam numa interface com o CAiiA, Centre University of Wales College, Newport,UK. Assim a Universidade de Brasilia,UNICAMP, PUC de São Paulo e Universidade de Caxias do Sul e trouxeram para o Brasil o Pesquisador da Grã- Bretanha, Prof. Dr. Roy Ascott, diretor do CA II A, Centre for Advanced Inquiry in the Interactive Arts da UWCN.
No Rio Grande do Sul, o envolvimento da Universidade de Caxias do Sul é através do Mestrado Interinstitucional em Comunicação e Semiótica UCS/PUCSP e do Grupo de Pesquisa NOVAS TECNOLOGIAS NAS ARTES VISUAIS através de programação local bem como da participação da Profa. Diana Domingues na equipe brasileira que acompanhou o professor convidado na viagem de reconhecimento ao Xingu, junto à comunidade dos índios KUIKURUS após a visita a reserva indígena, foram realizadas palestras em Brasilia na Fundação do Distrito Federal.
O projeto:
REDE XAMÂNICA: INTERSECÇÕES ENTRE AS CULTURAS INDÍGENA E TELEMÁTICA
Teve seu início no mês de maio de 1997. Nas quatro Instituições brasileiras em seus Programas de Pós-Graduação em nível de Mestrado e no caso da PUCSP, também em nível de doutorado deverão Prof. Roy Ascott realizou palestras e seminários em seus cursos e grupos de pesquisa.
Num primeiro momento, ou seja, anteriormente às atividades nos quatro pontos do Brasil, o Professor Roy Ascott acompanhado de um professor pesquisador de cada uma das Universidades brasileiras e com um técnico da FUNAI realizaram uma Expedição de Reconhecimento ao Xingu onde a equipe estará verificando especificidades da Cultura Indígena .
Num segundo momento os pesquisadores em Brasília realizaram comunicações sobre suas pesquisas revitalizadas por dados coletados na recente expedição. Num terceiro momento, o professor convidado se deslocou para cada uma das Instituições receptoras onde junto a seus Programas de Pós-Graduação e aos grupos de pesquisa existentes realizou palestras para os alunos dos cursos e outras atividades programadas por cada Instituição. No caso de Caxias do Sul foram feitos seminários no Mestrado Interinstitucional em Comunicação e Semiótica PUCSP/ UCS, e uma palestra para a comunidade em geral. Ainda na UCS, o professor convidado atendeu atividades junto ao Grupo de Pesquisa Novas Tecnologias nas Artes Visuais cujo projeto atual ARTE TECNOLOGIA E COMUNICAÇÃO: POÉTICAS, NOS, INTERAÇÕES inclui investigações diretamente ligadas a redes de comunico. Na oportunidade foi aberto um banco de dados on line sobre a pesquisa, marcando a presença de Roy Ascott em Caxias do Sul.
Sobre a origem do projeto:
Em novembro /dezembro de 1995, por ocasião do maior evento internacional já realizado, no Brasil, sobre Arte e Tecnologia "ARTE DO SÉCULO XXI: A HUMANIZAÇÃO DAS TECNOLOGIAS" - colóquio e exposição, ambos realizados em São Paulo, sendo o colóquio no Memorial da América Latina e a exposição "Arte e Tecnologia" no Museu de Arte Contemporânea, MC/USP mais de vinte pesquisadores convidados do estrangeiro e brasileiros entre eles os integrantes deste projeto, Prof. Dr.Roy Ascott da Grã-Bretanha, Profa. Dra. Diana Domingues da Universidade de Caxias do Sul ( curadora geral do evento), Prof. Dr. Gilberto Prado da Unicamp ( coordenador da exposição no MAC-USP), Prof. Dr Arlindo Machado da PUCSP, Profa. Dra. Maria Lucia Santaella da PUCSP, (comitê cientifico) Profª. Dra. Tânia Fraga da UnB iniciaram um processo de Comunicação, via correio eletrônico para a realização do presente projeto.
A base conceitual
As bases conceituais estão na incorporação das redes de comunicação numa relação da arte e da Comunicação com o desenvolvimento tecnológico que marca este final de século . Essas questões estão sendo amplamente discutidas e um dos autores mais reconhecidos mundialmente é Roy Ascott, pioneiro em redes telepáticas, e uma das maiores autoridades em cultura interativa.
Roy Ascott propõe que as pesquisas relevantes em Arte, na virada deste milênio, correlacionam-se com a exploração da mente, da consciência global, da celebração daquilo que ele chama de "telenoia" - o sentido de união através da telepática. Ele constata que estão se constituindo comunidades virtuais via rede onde os artistas desempenham especial papel pois trabalham com valores espirituais que são disseminados e podem ser conectados on-line. A cultura indígena e seus líderes espirituais ou xamãs são um fonte necessária de investigação para este novo campo de relações que se abre no espaço da rede. Diz Ascott que o espaço da Net é um " cyberpsychic space" (catalogo ARTE e TECNOLOGIA, em anexo) onde valores espirituais circulam mudando as relações entre as pessoas seus mitos, valores, crenças, desejos. As relações humanas têm hoje na rede um fértil campo de crescimento . Comunidades indígenas são una base importante de aprendizagem para detectar formas de relacionamento, ritos, valores que alicerçam estas novas relações imateriais que alimentam as comunidades virtuais do planeta
Os pesquisadores com esse intercâmbio, estão montando um website denominado "Rede Xamânica" ou "Shamantic Web". Essa rede visa ao desenvolvimento de um projeto inédito com mídias telemáticas. Para realizá-lo o grupo pretende detectar as intersecções multiculturais, que possam existir, entre as culturas indígenas e tais mídias. O projeto de pesquisa "The Shamantic Web" - Rede Xamânica foi inicialmente concebido pelo artista e professor doutor Roy Ascott - diretor do Centro de Estudos Avançados em Artes Interativas da "University of Walles College" de Newport, Inglaterra
Sobre o Professor Roy Ascott:
Reconhecido internacionalmente como um pioneiro da cibernética, interatividade e telemática nas artes, os principais projetos em rede de Ascott incluem "Terminal Art" USA/UK, 1980; "La Plissure du Texte: a planetary fairy tale", Paris, 1984; "Aspects of Gaia", Ars Electronica, Linz, 1989. Participou em mais de uma centena de projetos em rede através do mundo. Seus textos teóricos são largamente publicados em outras línguas. Realiza conferências em muitos países da Europa e na América do Norte. O CEC Bruxelas, o Ministério de Cultura da França, UNESCO, o NTT, o Ars Electronic Center em Linz (Áustria), e o ISEA estão entre as muitas organizações que o tem consultado. Foi curador internacional da Bienal de Veneza em 1986 (Tecnologia e Informática). Ex-presidente do Ontario College of Art em Toronto, reitor do San Francisco Art Institute na Califórnia, e professor de Teoria das Comunicações da Universidade de Artes Aplicadas em Viena, ele agora ocupa a posição de Diretor do Centro para Investigação em Arte Interativa da Newport School of Art and Design, Gwent College, Wales. É membro do juri do Prix Ars Electronica, Linz e do Interactive Media Festival, San Francis
DA IMPORTÂNCIA DO INTERCÂMBIO
O professor Roy Ascott é uma dos mais importantes e conceituados pesquisadores a nível internacional sobre Arte, Ciência e Tecnologia, sendo editor honorário da revista Leonardo (MIT-PRESS), uma das mais importantes publicações nessa área e atualmente dirige o Centro para Investigação em Arte Interativa da Newport School of Art and Design, Gwent College na Inglaterra. Sua presença entre nós, além das conferências e debates, será também igualmente enriquecedora à nível de intercâmbio e discussão das pesquisas que vêm sendo desenvolvidas em diversos programas de pós-graduação brasileiros com pontos comuns de investigação.
Com este projeto estão sendo intensificadas pesquisas em arte e Tecnologia interessadas na aplicação das redes telepáticas, conduzindo-se uma pesquisa internacional relacionando a cultura indígena a cultura telepática num intercâmbio entre a UNICAMP, a PUC- SP, a Universidade de Caxias do Sul- RS, a Universidade de Brasília, e a University of Wales College de Newport, Inglaterra.
The Shamantic Web , a Cultura das Redes e a Era Pos-Biológica
De acordo com Roy Ascott, a vida artificial, as redes globais telemáticas, a nanotecnologia, a biotecnologia e as tecnologias digitais constituem o cenário pós-biológico, que emerge, presentemente, na nossa sociedade. As implicações, culturais e sociais, advindas dessa imersão demandam a mediação e a apreciação dos artistas e dos visionários de todas as culturas e tradições, para avaliar o impacto desse cenário na Arte e na Cultura. É importante, também, ressaltar que, só assim, possibilitar-se á a manutenção, o enriquecimento e a expansão da herança espiritual e cultural humana, isto é, daquilo que caracteriza nossa humanidade.
Para Ascott, "o termo post-biological pretende cobrir todos os aspectos da vida que são mediados, amplificados ou transformados pela Tecnologia". Esse conjunto de aspectos possibilita-nos inqüirir sobre as possibilidades de explorar o fenômeno artístico para ampliar a compreensão do processo cognitivo e da modelagem conceitual das teorias da mente.
Essa mediação e avaliação envolverão o uso de nossos poderes criativos, cognitivos e perceptivos, amplificados tecnologicamente, incorporados na faculdade emergente de um novo tipo de percepção cibernética - "cyberception". Esse tipo de percepção, desde que devidamente empregado, juntamente com a telepresença - caracterizada, por exemplo, como a atuação de uma pessoa, em lugares inóspitos, através de robôs - e a "teleprescience" - a capacidade de discernimento exercida a distância - podem autorizar-nos a prever e a antecipar mais rapidamente, certas situações. Isso pode ocorrer, tanto no domínio espiritual quanto no conceitual, e capacita-nos, também, com uma espécie de ubiqüidade global.
No que diz respeito à essa situação verifica-se que ela exige uma mudança de paradigma. Para que tal deslocamento paradigmático possa ocorrer, entretanto, torna-se fundamental a nossa redefinição de "Self " e do nosso papel na construção da realidade. É importante destacar que, essa redefinição necessita resgatar uma herança cultural há muito, ou perdida, ou totalmente descaracterizada. Em aditamento a essas constatações, cumpre salientar que algumas tribos brasileiras da região Amazônica, como é o caso dos Kuikuros, ainda mantém a pureza de sua Cosmovisão e, portanto, eles têm muito a ensinar-nos.
Diante do exposto, é relevante compreender aquilo que já foi estudado sobre o xamanismo na região Amazônica. Com referência a essa instituição podemos dizer que ela é a mais importante, dentre todas as outras instituições existentes nas tribos do parque do Xingú. O processo de expressão dos valores centrais dessas sociedades - o cerne da concepção de mundo por elas partilhada - constitui-se através do xamanismo. Ele é o instrumento utilizado para compreender e influenciar a vida quotidiana; é a maneira de mudar as energias psicossomáticas, quando acontecem as inevitáveis confrontações entre o mundo interior e o espiritual; e é também a ferramenta para manobrar os desafios apresentados nos embates com o mundo exterior.
A concepção de Universo, dos grupos indígenas do Amazonas, segundo E. Jean Matteson Langdon (ver [LANG96], pg. 27), apresenta múltiplos níveis. A realidade visível implica numa outra, invisível; nesse Universo, tudo interelaciona-se através de uma energia unificadora; nele, todas as coisas relacionam-se com inúmeros ciclos: o da vida e da morte, o da produção e da decomposição, entre outros. Os diversos mundos - natural, supra natural, social e ecológico - estão conectados.
A energia é um Poder e o Pagé - o xamã - é o mediador entre o mundo natural e o supra natural. Ele recebe esse Poder como sendo um princípio transformador. Ele, ou ela, é o ator com o conhecimento técnico capaz de propiciar a experiência do êxtase; a decifrar os sonhos; e a receber as danças, as imagens, as canções e os sons do mundo espiritual. Subseqüentemente, todas essas experiências podem ser usadas pelo grupo, permitindo-lhe ter acesso ao nível de consciência atingido pela meditação xamânica. Tais experiências possibilitam, também, a harmonização dos domínios humanos com os domínios supra sensoriais, através da capacidade metamorfoseadora do xamã.
Os ritos dessa região são expressões metafóricas da unidade do Universo e recriam, transformam e manifestam sua ordem intrínseca. Uma vez que a transformação caracteriza a natureza do Cosmos, o xamã, os seres e as coisas podem transformar-se através do processo de metamorfose por que passa o primeiro.
Diante do exposto, segundo Ascott, é preciso ainda evocar um novo "insight" para a antiga metáfora do "Uroborus" - a serpente, ou dragão, cuja cabeça engole o próprio rabo, que "copula consigo mesmo, matando-se e ressucitando a si mesmo. Hermafrodita, é constituído de opostos e ao mesmo tempo é o símbolo dos opostos" (ver [JUNG90], pg. 387).
O "Uroborus", "Ouroborus", ou Uróboro é um emblema da natureza cíclica e eterna do Universo. Por um lado, é a imagem que representa toda a sabedoria imbricada na história da humanidade e está embebida na tradição xamânica. Por outro lado, lembra a Sucury-lua - a serpente-mulher que deu o desenho às mulheres - constituindo um mito que, tanto expressa a troca cíclica da pele da cobra, bonita como uma pintura, quanto a transformação inerente ao mundo feminino - coisas de mulheres e proibidas aos homens.
Vale lembrar também que Ascott aponta os desejos e visões investidos nas novas tecnologias da inteligência e da vida artificiais, como sendo facilmente detectáveis na cultura Telemática, hoje em formação. Ele mostra, também, que tais desejos podem ser expressos pela mesma metáfora: o "Uroborus" - a cabeça conectada ao rabo, representando a busca da comunicação e da comunhão entre a vida e a tecnologia, através da Arte. Assim, a comunicação e a comunhão atingidas podem promover um tipo de supra-sensorialidade cibernética cuja emersão induzirá a formação de uma consciência reconfigurada.
O programa desenvolvido no Brasil:
EXPEDIÇÃO CIENTÍFICA AO XINGU: dos dias de 08 a 14 de maio foi realizada a "Expedição de Reconhecimento ao Parque do Xingu" Essa expedição foi organizada conjuntamente com a FUNAI, para visita à tribo Kuikuro, do grupo Karibe. Essa tribo, juntamente com a dos Machipús, ainda conserva a pureza de suas crenças, pois não tiveram contatos com os grupos missionários que, geralmente, iniciam os índios nas doutrinas ocidentais cristãs, inerentes à nossa cultura, desvirtualizando a visão de mundo xamânica.
PALESTRAS EM BRASÍLIA:
Tendo por local o Espaço Cultural da 508 Sul, em Brasília, dias 15 e 16 de maio, os pesquisadores Diana Domingues e Gilberto Prado, Maria Luiza Taunay, Tania Fraga e Virgínia Haeser debateram os seguintes temas:
Transe: O Corpo no Ritual Eletrônico - Diana Domingues;
Impressões de Viagens - Gilberto Prado;
Diálogos: Material e Imaterial - Maria Luiza Taunay;
Technoetic Aesthetics (from Appearance to Apparition) - Roy Ascott;
The Shamantic Web - Roy Ascott;
Poéticas: Signos Resemantizados - Tânia Fraga;SEMINÁRIOS NAS INSTITUIÇÕES BRASILEIRAS:
Durante sua estada no Brasil o professor Ascott proferirá conferências sobre os seguintes tópicos:
- A Rede Xamanística (UNB, UNICAMP, PUC-SP e UCS)
- Estética Tecnoética: da Aparência à Aparição (UNB)
- "Telenoia": Estética das Artes Telemáticas (UNICAMP)
- A Arquitetura da Ciberpercepcão (PUC-SP)
- O Collegium Planetário (UCS)SEMINÁRIOS NA UNIVERSIDADE CAXIAS DO SUL:
-Seminário para o MESTRADO INTERINSTITUCIONAL EM COMUNUCACAO E SEMIOTICA, UCS/ PUCSP. -Seminários para o Grupo de Pesquisa NOVAS TECNOLOGIAS NAS ARTES VISUAIS desenvolvendo aspectos ligados à criação artística em rede, assunto integrante da pesquisa ARTE,TECNOLOGIA E COMUNICAÇÃO: Poéticas, Nos e Interações, da UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL em desenvolvimento na UCS e que conta com apoio da FAPERGS e do CNPq.
- Palestra do Prof. Roy Ascott, no Bloco H, Centro de Ciências Humanas e Artes da UCS, aberta à comunidade.REDE XAMÂNICA:
Após essa viagem, está sendo implementado um site na INTERNET. Esses nós atuarão como catalisadores, atraindo outros pesquisadores, artistas e pessoas interessadas.